Robótica transforma vidas e amplia oportunidades para estudantes indígenas na região do Xingu
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Há poucos anos, falar em robótica nas comunidades indígenas da região do Xingu, no Pará, parecia algo distante. Na Aldeia Boa Vista, do povo Juruna, em Vitória do Xingu, robôs, sensores, programação e competições nacionais pareciam pertencer a outro mundo, muito longe das margens do rio Xingu e da realidade dos estudantes da Escola Indígena Francisca de Oliveira Lemos Juruna.
Mas a história mudou. E mudou tanto que hoje os corredores da escola são ocupados por jovens que discutem estratégias de competição, aprendem programação, desenvolvem projetos e sonham em representar o Brasil em torneios internacionais, sem deixar para trás a cultura, a língua e a identidade do seu povo.

Esse processo de transformação ganhou novos capítulos nos dias 15 e 16 de junho, quando o Serviço Social da Indústria (SESI Pará), em parceria com o Conselho Nacional do SESI, realizou o lançamento da primeira equipe indígena brasileira na FIRST Tech Challenge (FTC) e ampliou o projeto Tecendo Saberes com Robótica para outras dez escolas indígenas da região do Xingu, alcançando comunidades de Vitória do Xingu e Altamira.
O projeto ganha ainda mais relevância quando se observa a dimensão dos povos originários no Brasil. Segundo o Censo 2022, o país possui cerca de 1,7 milhão de indígenas, o equivalente a 0,83% da população brasileira, e mais da metade deles vive na Amazônia Legal. É nesse território de enorme diversidade cultural que iniciativas voltadas à educação e à tecnologia podem representar muito mais do que acesso ao conhecimento: tornam-se instrumentos de inclusão, protagonismo e valorização das tradições.
Início em 2024
Tudo começou quando, em 2024, o SESI decidiu levar a robótica educacional para a Escola Municipal Indígena Francisca de Oliveira Lemos Juruna. O objetivo era ousado: apresentar aos estudantes uma nova forma de aprender, baseada em desafios práticos, criatividade e resolução de problemas, sem abrir mão dos saberes e da cultura do povo Juruna.
Os resultados apareceram rapidamente. Em 2025, a equipe Jurunabots tornou-se a primeira equipe indígena do Brasil a participar da etapa nacional do Torneio SESI de Robótica, em Brasília. Já em 2026, conquistou o Prêmio Revelação na etapa nacional da FIRST LEGO League (FLL), em São Paulo, mostrando que talento, inovação e ancestralidade podem caminhar juntos.
Desde então, a robótica educacional vem ocupando um espaço cada vez maior dentro da comunidade Juruna, provocando mudanças que vão muito além do aprendizado tecnológico.
Uma escola antes e depois da robótica
Quem vê a movimentação dos estudantes hoje talvez não imagine que a escola já foi muito diferente. A professora Lucilene Ferreira acompanha essa mudança de perto. Segundo ela, a chegada da robótica transformou a relação dos alunos com a escola.
"Os alunos se tornaram outras pessoas. Eles desenvolveram raciocínio lógico, disciplina e compromisso. Antes, muitos não tinham tanto interesse pelas atividades. Hoje, eles chegam com outra visão, outro olhar. A robótica não se trata só de robôs. Ela fala de inovação, tecnologia e, principalmente, de transformação", conta. "Os nossos alunos mudaram. Eles querem crescer, aprender e ir cada vez mais longe", reforça.
Essa percepção também é compartilhada pelo professor indígena Talles Juruna. Nascido e criado na comunidade, ele viveu a escola antes e depois da robótica. "É importante porque os alunos desenvolvem habilidades que normalmente não fazem parte do nosso cotidiano. Eles melhoraram a oralidade, as relações com as outras pessoas e passaram a ter mais confiança", explica.
Para ele, a transformação vai além da sala de aula. "Isso mostra para o Brasil e para o mundo que o lugar dos povos indígenas é onde eles quiserem estar."

"A palavra é orgulho"
João Chaves é um dos estudantes que vive essa transformação. Ele participa da equipe de robótica e resume em uma única palavra o que sente. "Orgulho." Ele explica: "Antigamente a escola não tinha esse conhecimento tecnológico que a robótica trouxe. A gente pensava que robótica era só mexer num robô e fazer missões. Mas não é isso. Robótica é inovação, é transformação."
Agora, com a entrada na FTC, uma das mais avançadas categorias da robótica educacional mundial, os sonhos cresceram. "Queremos fazer sucesso, como fizemos na FLL. Queremos mostrar para outras pessoas que os povos indígenas podem estar no pódio e competir de igual para igual."
Uma nova forma de enxergar o futuro
A estudante Wandria Juruna também admite que tinha uma ideia completamente diferente da robótica. "Eu achava que seria algo simples, só mandar o robô. Mas descobri que é muito mais complexo." Ela sorri ao lembrar da primeira competição. "Foi uma experiência nova. Eu me senti muito feliz e consegui me encaixar bem."
Mas, para ela, a maior conquista veio em outro lugar. "Eu acho que o principal foi o conhecimento. Muitos alunos passaram a falar melhor, fizeram mais amizades e começaram a acreditar mais em si."
Ela mesma se inclui nessa mudança. "Hoje eu tenho muita vontade de ir para a escola. Quero aprender mais, participar da FTC e até ganhar algum prêmio. É um sentimento de orgulho. Eu vejo como eu mudei e como a robótica ficou marcada na minha vida", diz a estudante.
Crescimento do IDEB reflete avanços na educação
Os impactos da robótica não estão apenas nos torneios, nos robôs construídos ou nos sonhos que nasceram dentro da escola. Eles aparecem, também, nos números. Segundo o secretário municipal de Educação de Vitória do Xingu, Grimário Reis Neto, o município apresentou avanços expressivos nos indicadores educacionais nos últimos anos, e a experiência desenvolvida pelo SESI na Escola Francisca Juruna contribuiu para esse cenário positivo.
Nos anos iniciais, o IDEB passou de 4,9, em 2023, para 6,4 em 2025. Já nos anos finais, a evolução foi de 4,7 para 5,7 no mesmo período. "Foi um impacto muito grande. Nós atribuímos também esse resultado ao projeto de robótica", afirma.

Mas, para o secretário, existe uma transformação que não cabe em tabelas ou gráficos. "Nós vimos alunos que praticamente não se comunicavam e que, a partir do projeto, passaram a conversar, a se relacionar melhor e até a ajudar outros colegas", destaca.
Tecnologia que respeita as raízes
Uma preocupação sempre acompanhou a expansão do projeto: como levar inovação respeitando a cultura dos povos originários? Para o cacique Fernando Juruna, liderança da Aldeia Boa Vista, a resposta está na forma como o projeto foi construído desde o início.
"O SESI chegou até nós com muito respeito. Em nenhum momento quis mudar a nossa cultura ou impor alguma coisa. Pelo contrário: ouviu a comunidade, entendeu a nossa realidade e mostrou que a tecnologia pode caminhar junto com os nossos saberes. Isso fez toda a diferença."
Segundo o cacique, acompanhar a evolução dos estudantes é a realização de um sonho antigo. "Eu vejo os nossos jovens participando de torneios, viajando, conhecendo outros lugares e aprendendo coisas que, há alguns anos, pareciam impossíveis para nós. É a realização de um sonho não só meu, mas de toda a comunidade. Nós sempre acreditamos na capacidade dos nossos filhos, mas faltavam oportunidades."

Fernando Juruna afirma que a expectativa agora é ver esse movimento crescer e beneficiar ainda mais comunidades indígenas da região do Xingu. "Hoje nós vemos os nossos jovens sonhando mais alto. Eles sabem que podem estudar, se qualificar e conquistar o espaço que desejarem, sem deixar de ser indígenas. Isso nos dá esperança e a certeza de que estamos construindo um futuro melhor para o nosso povo."
A coordenadora regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Isabel Félix, destaca que o projeto também chama atenção pela forma como foi construído. "Ele respeita aquilo que a Constituição determina: os costumes, as crenças e a cultura dos povos indígenas." Segundo ela, a robótica chega não para substituir os saberes tradicionais, mas para fortalecê-los. "Esse projeto traz avanço tecnológico e educação indígena para promover e preservar a cultura", destaca Isabel.
Uma nova fase
Agora, o desafio é maior. Além da nova equipe indígena na FTC, o projeto Tecendo Saberes com Robótica, recém-lançado, passa a atender outras dez escolas indígenas da região do Xingu. "O nosso desejo é que todas essas comunidades participem das competições do SESI e se tornem agentes multiplicadores dentro dos seus territórios", afirma Dário Lemos, superintendente do SESI Pará.
O Tecendo Saberes com Robótica foi concebido para aproximar inovação e conhecimentos tradicionais, utilizando temas presentes no cotidiano das comunidades indígenas — como pesca, agricultura, preservação ambiental e sustentabilidade da floresta — como ponto de partida para o aprendizado. A proposta prevê oficinas práticas de robótica, capacitação de professores, acompanhamento pedagógico e o desenvolvimento de projetos interdisciplinares, estimulando competências em ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática (STEAM), sempre em diálogo com a cultura e a realidade local.

Segundo Lemos, a robótica é uma ferramenta para ampliar horizontes, mas sem abrir mão da identidade dos estudantes. "Em momento algum queremos que eles percam sua cultura. Pelo contrário. A robótica veio para fortalecer ainda mais essa identidade."

Tecnologia e tradição caminhando juntas
Para o presidente do Conselho Nacional do SESI, Fausto Augusto Junior, a iniciativa representa o encontro entre dois universos que, por muito tempo, pareciam distantes. "É a possibilidade de levar a robótica e encontrar os povos tradicionais. É a modernidade que a robótica traz encontrando os saberes tradicionais e a cultura dos povos originários."


Já o presidente da FIEPA, Alex Carvalho, destaca que a iniciativa demonstra como a educação pode ampliar oportunidades sem desconsiderar a identidade cultural das comunidades. "A Amazônia precisa de ousadia e inovação. O que vemos aqui é um projeto transformador, que leva robótica, mas também integração, valorização e oportunidades. Estamos mostrando que é possível aproximar tecnologia e saberes tradicionais, oferecendo aos jovens indígenas ferramentas para construírem o próprio futuro, sem abrir mão de suas raízes", conclui.
























