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El Niño pode ser o mais intenso desde 1950 e CNI une infraestrutura e meio ambiente para prevenir desastres e prejuízos

há 2 minutos
4 min de leitura

Conselhos da CNI discutem alerta científico, riscos de secas no Norte e chuvas no Sul e medidas de prevenção



Brasília, 27 de outubro de 2026 – O Brasil pode enfrentar um dos episódios de El Niño mais intensos desde o início dos registros, em 1950, com risco de chuvas extremas no Sul e agravamento da seca no Norte. O alerta foi apresentado nesta terça-feira (27) pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), na primeira reunião conjunta do Conselho Temático de Infraestrutura (COINFRA) e do Conselho Temático de Meio Ambiente e Sustentabilidade (COEMAS), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília.


Segundo o Painel El Niño 2026–2027, há 95% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro, com efeitos que podem se estender a 2027. O coordenador-geral de Ciência do Clima do MCTI, Márcio Rojas da Cruz, informou que anomalias de temperatura das águas do Pacífico Equatorial chegam a 3,6°C em algumas áreas, sinalizando um episódio excepcional.


O presidente do COEMAS, Marcelo Thomé, alertou que as consequências alcançam o abastecimento de água, a geração hidrelétrica, os custos de energia e a integridade de rodovias, ferrovias e hidrovias. “Para a indústria e para a infraestrutura, os efeitos vão muito além do clima”, afirmou. Segundo ele, os prognósticos devem orientar investimentos em adaptação.


Na Amazônia, a redução das chuvas pode diminuir o nível dos rios e comprometer o transporte de pessoas e mercadorias. O presidente do COINFRA e da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), Alex Dias Carvalho, defendeu que a prevenção considere, ao mesmo tempo, competitividade, segurança das populações e preservação ambiental.



“A navegabilidade não tem apenas uma dimensão econômica, mas também social e ambiental. Por isso reiteramos às autoridades competentes a decisão pela dragagem do rio Tapajós que, apesar de todos os dados apontando para a crise, foi negligenciada ”, destacou. Ele lembrou que restrições ao transporte fluvial pressionam o modal rodoviário, elevam os custos logísticos e podem aumentar as emissões de gases de efeito estufa. Para Carvalho, é necessária uma agenda para as hidrovias, sustentada por ciência e planejamento. “Ampliar a infraestrutura e garantir a continuidade da navegação também contribuem para os compromissos de descarbonização do país”, afirmou.


Os riscos vão além do El Niño. Estudos para a próxima Comunicação Nacional do Brasil sobre mudanças climáticas já apontam municípios com aquecimento médio superior a 2°C em relação ao período pré-industrial. Em cenários futuros de emissões elevadas, a alta poderá alcançar 4°C em grande parte do país. “Os eventos extremos são a realidade hoje e vão ficar mais intensos e mais frequentes”, advertiu Márcio.


O diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, defendeu uma coalizão entre setor produtivo, governo e comunidade científica para transformar indicadores climáticos em ações preventivas. “Nós temos os números, os indicadores, nós temos as consequências e a gente não consegue antecipar esse processo”, observou.


Muniz citou os desafios das hidrovias amazônicas, especialmente do rio Tapajós, para defender soluções que conciliem logística, meio ambiente e consulta a povos indígenas e comunidades tradicionais. Segundo ele, a integração entre infraestrutura e sustentabilidade permite construir respostas mais consistentes, sobretudo na Amazônia.


Efeitos sobre alimentos, emprego e transporte


O chefe de Pesquisa Econômica Regional do Banco do Brasil, Júlio Lopes, apresentou os possíveis impactos econômicos de um Super El Niño. Seu cenário-base projeta queda de 2,5% no PIB da agropecuária em 2027. Como comparação, citou a retração de 5,2% registrada em 2016, durante outro episódio intenso do fenômeno.


O Matopiba, que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, inspira maior preocupação: calor acima da média e chuvas abaixo do esperado podem prejudicar as safras de soja e milho. Novembro e dezembro serão decisivos para dimensionar os efeitos sobre a produção. No Centro-Oeste, mais chuva e a umidade do solo podem atenuar perdas.


Lopes também destacou os riscos à navegação no Arco Norte, corredor estratégico para o escoamento de grãos. As secas de 2023 e 2024 restringiram o transporte hidroviário e elevaram os custos logísticos. Apesar dos níveis atualmente mais favoráveis, novas restrições são possíveis.


No Sul, a preocupação é com as chuvas intensas, alagamentos e destruição de infraestrutura. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram como desastres afetam empregos, empresas e serviços, exigindo meses de recuperação.


Ao encerrar a reunião, o presidente do COINFRA e da FIEPA, Alex Dias Carvalho, destacou a importância da integração entre infraestrutura e sustentabilidade como caminho para recuperar a competitividade da indústria brasileira. “Hoje demos um passo muito importante ao demonstrar que agendas distintas podem convergir para um objetivo comum: o desenvolvimento do Brasil. Precisamos avançar na infraestrutura com respeito às questões socioambientais, sem permitir que a sustentabilidade seja utilizada como pretexto para criar barreiras ao desenvolvimento”, afirmou.


Carvalho ressaltou que o Brasil vem perdendo espaço na indústria mundial e precisa superar antagonismos para construir soluções concretas. “Não precisamos escolher entre desenvolvimento e sustentabilidade. Precisamos de convergência, transparência e decisões que garantam o futuro do país. Esse não é apenas um apelo da Amazônia, mas de todo o Brasil e das próximas gerações”, concluiu

 
 

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