FIEPA e FAEPA homenageiam Roberto Rodrigues e apresentam panorama do agro paraense
Encontro em Belém coloca em debate peso econômico do setor, uso do território e caminhos para conciliar produção, preservação e segurança jurídica

A força econômica da agroindústria paraense e os desafios para ampliar a produção de forma sustentável estiveram no centro de encontro realizado na noite desta quinta-feira (10), em Belém, pela Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) e pela Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (FAEPA) na sede da FIEPA. Durante o evento, as entidades homenagearam o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, por sua trajetória no agronegócio brasileiro e pela atuação como Encarregado Especial da Agricultura na Presidência da COP30.
O encontro também colocou números sobre um debate que envolve produção, floresta e desenvolvimento. Um panorama elaborado pelo Observatório da Indústria do Pará da FIEPA foi apresentado pelo gerente executivo, Felipe Freitas, com indicadores sobre agro e agroindústria, emprego, exportações, ocupação territorial e desmatamento.
Os dados mostram que o agronegócio paraense gerou R$ 29,6 bilhões em valor adicionado em 2023, equivalente a 12,9% do total do Estado. Valor adicionado é a riqueza efetivamente criada por uma atividade depois de descontados os bens e serviços consumidos no processo produtivo e constitui uma das bases para o cálculo do Produto Interno Bruto (PIB).
O setor reúne 25.079 estabelecimentos ativos e 130.395 empregos formais distribuídos por 141 municípios. Nas exportações, foram US$ 4,34 bilhões em 2025, recorde da série iniciada em 2015 e equivalente a 18% de tudo o que o Pará vendeu ao exterior.
Ao apresentar os números, Felipe Freitas destacou especialmente o avanço da agroindústria, elo responsável por transformar a produção primária e agregar valor. O segmento encerrou 2025 com 68.796 empregos formais, crescimento de 22,7% desde 2021, com expansão em todos os anos do período. Somente em 2025, a agroindústria abriu 3.740 vagas líquidas e exportou US$ 1,66 bilhão em produtos processados. “Os números mostram uma agroindústria que vem ampliando de forma consistente sua participação na geração de empregos e na transformação da produção paraense. Hoje, mais da metade dos vínculos formais de todo o agronegócio do Estado está na agroindústria”, destacou Felipe Freitas, ao apresentar o levantamento.

Para o presidente da FIEPA, Alex Carvalho, a aproximação entre indústria e agro é fundamental para ampliar a capacidade do Pará de transformar suas riquezas em desenvolvimento. “Hoje, esta casa não é somente a casa da indústria, é a casa da agroindústria. E é por lideranças como o ministro Roberto Rodrigues que hoje temos essa junção dos dois setores com tanta força. Precisamos fazer um pacto para que tenhamos cada vez mais força e para que o Pará não seja mais deixado à margem. Porque queremos e sabemos gerar desenvolvimento sustentável”, afirmou.

Para o presidente da FAEPA, Carlos Xavier, o avanço da atividade também passa pela construção de segurança jurídica e de regras que considerem a realidade produtiva e ambiental do Pará. Xavier ressaltou o conjunto de vantagens naturais e estruturais do Estado e defendeu que esse potencial seja efetivamente convertido em desenvolvimento. “Nós temos território, estabilidade climática, água e energia. O projeto é fazer sete milhões de hectares de área irrigada. Irrigação é uma agregação tecnológica que nós temos no agronegócio. Precisamos sair dessa situação de ser um Estado que tem tudo para ser o primeiro e transformar essas potencialidades em desenvolvimento”, afirmou.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Carne e Derivados do Estado do Pará (Sindicarne) e vice-presidente executivo da FIEPA, Daniel Freire, reforçou a defesa da união entre as entidades representativas do setor produtivo. Para ele, o fortalecimento das federações, sindicatos e demais instituições de classe é ainda mais importante diante de um cenário nacional marcado por incertezas.
“As federações da indústria e da agricultura, assim como todas as instituições de classe do nosso Estado e do nosso país, precisam ser fortalecidas. Quando há desequilíbrio, insegurança ou falta de confiança nas instituições, quem sofre é o país como um todo”, afirmou.
Segundo Freire, esse ambiente afeta diretamente quem investe e produz. “Isso compromete a capacidade de planejamento de quem produz, empreende, gera empregos e acredita no país. Por isso, mais do que nunca, precisamos de instituições de classe fortes e de um setor produtivo unido, com voz e capacidade de liderança, participando ativamente da construção dos rumos que queremos para o nosso Estado e para o nosso país”, destacou.

Outra mensagem central da apresentação foi que 78,3% do território paraense permanece com vegetação nativa. O uso agropecuário ocupa 18,4% do Estado, sendo 17,4% de pastagens e apenas 1% destinado à agricultura, silvicultura e outros usos.
Segundo o PRODES/INPE, 17,4 milhões de hectares foram desmatados no Pará entre 1988 e 2025. Desse total, 11,5 milhões de hectares, ou 66% de todo o desmatamento acumulado, já haviam sido desmatados antes de 2008. Entre 2008 e 2025, o volume foi de 5,9 milhões de hectares.
Freitas ressaltou ainda que o desmatamento posterior a 2008 não está restrito às grandes propriedades. Em cinco dos dez municípios analisados, propriedades de até quatro módulos fiscais respondem por 47% a 56% da área desmatada no período. Em Castanhal, pequenas e médias propriedades somam 95%, mostrando que eventuais medidas de regularização alcançam também pequenos produtores.
A partir desse diagnóstico, foram apresentados três eixos para a agenda do setor: preservar a vegetação nativa das áreas já destinadas; combater de forma rigorosa o desmatamento e as queimadas ilegais; e abrir negociação com o Congresso Nacional e o Ministério Público Federal sobre mecanismos de regularização ambiental e segurança jurídica.
O presidente da União Nacional da Indústria e Empresas da Carne. (UNIEC), Francisco Victer, destacou a necessidade de superar antigas divisões entre os setores produtivos e enxergar na agroindústria a principal força dessa integração. “Há um tempo, a gente achava que o agro era inimigo da indústria e que a indústria era inimiga do agro, quando, na realidade, a força está na agroindústria. Já não basta dizer que somos o maior produtor disso ou daquilo. Precisamos transformar essa produção e agregar valor”, afirmou.
Victer ressaltou ainda a dimensão territorial e o potencial produtivo do Pará, fazendo uma comparação com outras regiões. “Temos praticamente 124 milhões de hectares. Caberiam no Pará Portugal, Espanha, França e, apertando um pouco, ainda a Holanda. Esse continente chamado Pará mantém 78,3% de vegetação nativa. Temos algo em torno de 22 a 23 milhões de hectares já antropizados, uma área maior que todo o estado do Paraná, que tem um PIB muito superior ao nosso mesmo sem possuir as riquezas minerais e tantas das possibilidades que temos aqui”, disse.
HOMENAGEM – Segundo o presidente da FIEPA, Alex Carvalho, “ao homenagear Roberto Rodrigues, FIEPA e FAEPA reconheceram uma trajetória marcada pela defesa da inovação, da produção sustentável e do fortalecimento das cadeias produtivas brasileiras”.
Ao agradecer a homenagem, Roberto Rodrigues disse recebê-la com humildade e afirmou não considerar que a merecesse, porque tudo o que fez ao longo da vida pública e em defesa do agronegócio foi por convicção e satisfação, e não por obrigação. “Eu não mereço nada. Tudo o que fiz, fiz com gosto, nunca obrigado”, afirmou. Em sua fala, Rodrigues destacou especialmente a capacidade de articulação que encontra no Pará e apontou o Estado como exemplo de liderança em um momento no qual, segundo ele, o Brasil e o mundo enfrentam justamente uma carência de lideranças capazes de construir projetos e indicar caminhos. “Sem liderança, não tem projeto. Sem projeto, não tem avanço. E eu vim aqui ao Pará várias vezes e, cada vez mais, vejo aqui liderança, liderança articulada, integrada. O que a indústria, o agronegócio e os diferentes setores fazem nesta reunião é uma demonstração de liderança a quem seguir”, disse. Para Rodrigues, essa articulação, somada ao enfrentamento da ilegalidade e à construção de um projeto coordenado de desenvolvimento, dá ao Pará condições de se tornar referência para o país.

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