Tradição milenar, cerâmica molda a cultura e movimenta economia no Pará
- Mayra Leal
- há 2 dias
- 6 min de leitura
Em mais uma reportagem da série “Bio Valor: os caminhos da socioboeconomia no Pará”*, conheça sobre a cadeia produtiva da cerâmica artesanal e industrial no estado

Desde o princípio das narrativas humanas, o barro está presente. É matéria de origem e de criação. Na tradição cristã, foi dele que Deus moldou o primeiro homem. Nas religiões de matriz africana, Nanã ofereceu a argila para que Oxalá desse forma aos corpos. Sagrado nas religiões, presente na cultura e indispensável na economia, o barro atravessa o tempo. Na Amazônia, ele se transforma em cerâmica, produto milenar presente nas casas, construções, na arte e que gera renda, trabalho, identidade e desenvolvimento social.
A cerâmica é feita da argila extraída dos rios, modelada e “queimada” em altas temperaturas. Do material surgem desde utensílios cotidianos, como pratos, panelas e objetos domésticos, até obras de arte e produtos industriais como tijolos, pisos, louças sanitárias e isoladores elétricos. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD Contínua do IBGE, apontam que a cerâmica está em mais de 77 milhões de domicílios no Brasil, principalmente na construção civil.
No Pará, o distrito de Icoaraci, em Belém, com cerca de 180 mil habitantes, é o principal polo da cerâmica artesanal do estado. São mais de 80 olarias concentradas especialmente no bairro do Paracuri, região rodeada de igarapés ricos em jazidas de argila. No nordeste do estado, o município de São Miguel do Guamá é o polo da cerâmica industrial. A região concentra mais de 40 fábricas, com produção mensal que pode chegar a milhões de tijolos.
Ambas as produções são destaque no estado, sendo uma economia comum fora dos grandes centros urbanos, e fonte de renda de diversas famílias e pequenos empreendedores, como os extratores de argila, transportadores, fornecedores de insumos e artesãos.
Pará é referência regional na cerâmica industrial

No campo industrial, a cerâmica tem peso estratégico. Dados de 2020 divulgados pelo IBGE mostram que a indústria ceramista movimenta em torno de R$18 bilhões, respondendo por 4,8% da construção civil e gerando quase 300 mil empregos diretos. De acordo com a Associação Nacional da Indústria Cerâmica (ANICER), a indústria ceramista possui tanta relevância para a construção civil e para o país que cerca de 90% das alvenarias e coberturas do país são baseadas na cerâmica vermelha. Fábricas modernas também já empregam tecnologias avançadas e fontes alternativas de energia, como pó de serragem e caroço de açaí.
Na Região Norte, o Pará é referência. Hoje o estado reúne cerca de 450 indústrias segundo o Sindicato das Indústrias de Olaria Cerâmica para Construção e Artefatos de Cimento Armado do Estado do Pará (SINDOLPA), associado à Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA). “As empresas estão distribuídas por várias microrregiões como São Miguel do Guamá, Castanhal, Abaetetuba, Santarém, Bragança e Marabá. Esses núcleos costumam ser compostos predominantemente por olarias de pequeno porte e produção artesanal ou semimecanizada, com baixa automação tecnológica”, explica Rivanildo Hardman, presidente do SINDOLPA.

Segundo ele, o setor busca regularização e qualidade. Noventa por cento das associadas já possuem certificação do Programa Setorial da Qualidade, exigida pela CAIXA no Minha Casa Minha Vida. Fornos modernos começam a substituir estruturas antigas, melhorando condições de trabalho e promovendo maior segurança. “A tecnologia faz todo o trabalho pesado, cabendo ao operador apenas comandar estes equipamentos, sem falar no ganho de qualidade, ganho na qualidade de vidas dos colaboradores, ganho na redução das perdas e otimização dos insumos”.
Para o sindicato, os principais desafios estão ligados à tecnologia e à modernização. “A estrutura ainda rudimentar limita a produtividade, qualidade e competitividade frente a outros pólos brasileiros, a qualificação da mão de obra e outras tecnologias construtivas que não utilizam tijolos ou telhas como insumos básicos”. De acordo com o presidente, o sindicato também atua para garantir a padronização dos produtos, a justa valorização e o fortalecimento das relações comerciais. “Estamos fortalecendo a parceria com a ANICER para que possamos trazer mais feiras e eventos para a Região Norte, visando a divulgação do produto cerâmico para o consumidor paraense”, conclui.
Cerâmica de Icoaraci renova ofício passado de geração em geração

O processo da cerâmica artesanal começa nos mangues. No Paracuri, os barreirenses retiram a argila e a levam às olarias, onde o material é limpo e amassado até chegar às mãos do oleiro, responsável por moldar as peças. Com a ajuda do equipamento chamado torno, o profissional vai dando forma à argila, em movimentos precisos e exatos de mãos e pés. Depois vêm a secagem ao sol, a queima no forno e a pintura, quase sempre inspirada nos grafismos marajoaras. Ao todo, são cerca de 15 etapas da extração até que a peça chegue ao consumidor final.
A tradição em Icoaraci guarda muitas histórias. Entre elas, a da Cerâmica Família Santana, que começou nos anos 1970, quando a matriarca “Vó Fernanda” chegou à vila e encontrou na olaria o sustento possível. Ela trabalhava como brunideira na histórica Olaria do Espanhol, a mais antiga em atividade no distrito, com mais de 120 anos de história. “Era ela quem dava brilho e impermeabilizava as peças antes da queima. Ela passou o restante da vida profissional fazendo isso”, conta a neta, Maynara Santana.
Assim como outras mulheres que trabalhavam nas olarias, Vó Fernanda levava os filhos para o local de trabalho. Entre eles, Guilherme Santana, pai de Maynara e que herdou o amor pela produção artesanal de cerâmica. “Meu pai foi quem realmente mergulhou no ofício e fez dessa atividade a sua vida. Ele é apaixonado por cerâmica, é arte educador, trabalhou durante muitos anos como arte educador dentro do Liceu, e eu cresci nesse ambiente de cerâmica”, conta Maynara. O Liceu é a Escola de Artes e Ofícios Mestre Raimundo Cardoso, instituição que além do ensino formal, ensina a arte da cerâmica amazônica para crianças e jovens, preservando a cultura ancestral.
Inicialmente a cerâmica não foi o caminho profissional escolhido por Maynara. Ela se formou em nutrição e só adulta, ao lado do esposo Sebastian, decidiu se dedicar à cerâmica artesanal, como forma de manter a tradição familiar e de valorizar um elemento, que considera uma entidade. “Tem muita coisa que envolve o barro, a gente realmente é apaixonado pela cerâmica, pela forma de ver a vida através dela e essa possibilidade de construir uma outra perspectiva de futuro, através dessas práticas tradicionais e que são completamente integradas à natureza”, destaca a empreendedora.
Com mais de 50 anos de história familiar e dez como empresa formal, a Cerâmica Família Santana desenvolve peças que unem ancestralidade, tradição e design moderno. Hoje, a empresa vive uma fase que Maynara chama de “um momento de maturação”, com várias frentes de trabalho: produção em atacado para grandes empresas, produção de peças personalizadas, varejo com loja física e virtual e as vivências em cerâmica. “As vivências são oficinas voltadas para um público inicial que quer ter esse primeiro contato com a arte ceramista, elas acontecem duas vezes por semana, o que gerou uma demanda de um curso permanente que será ofertado a partir deste ano”, conta.
Outro projeto desenvolvido é a Rota da Cerâmica, realizado em parceria com outras olarias do bairro. A iniciativa leva o público a conhecer a história da produção ceramista em Icoaraci. “Ali é um museu a céu aberto, são várias histórias que se pode contar e essa rota da cerâmica faz essa viagem no tempo, mostrando algumas olarias importantes durante esses 150 anos de história”. Para Maynara, a cerâmica é chave para compreender as antigas civilizações amazônicas. “Especificamente a Marajoara e a Tapajônica, que tinham uma decodificação e símbolos muito complexos. Para além da ciência moderna em que a gente só acredita vendo, eles acessavam o conhecimento através de outras tecnologias, de sonhos, de plantas. Era uma ciência produzida pelos saberes tradicionais e muito avançada. Então é de fundamental importância que esse conhecimento chegue cada vez mais para mais pessoas, para que a gente sinta esse processo de autoestima de entender que tudo que é bom vem daqui de dentro”, ressalta.
Para Maynara, um dos desafios é tornar a produção mais sustentável, principalmente no que se refere à extração da argila. “A argila é rocha em decomposição, ou seja, uma matéria que não é renovável e que demora muito tempo para se formar”. Algumas olarias já adotam práticas mais conscientes, mas o tema ainda exige políticas e inovação. “A gente precisa cada vez mais olhar mais para essa matéria-prima com respeito e dar uma solução para esse vazio que vai se formando conforme a gente extrai o material”, conclui.
*A série “Bio Valor” é uma iniciativa da Jornada COP+, liderada pela FIEPA, que traz reportagens mensais sobre histórias e informações dos principais produtos da sociobioeconomia da Amazônia Brasileira. A iniciativa também está alinhada ao Programa de Sociobioeconomia da Jornada, que está criando uma plataforma digital para medir o valor desta economia no Pará. A plataforma servirá como um mapa das cadeias de produtores, associações, cooperativas e indústrias que compõem esse ecossistema no estado.
Texto de Mayra Leal












