Tremor que gera renda: jambu movimenta inovação e sociobioeconomia no Pará
- Mayra Leal
- há 2 horas
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Em mais uma reportagem da série “Bio Valor: os caminhos da socioboeconomia no Pará”, conheça iniciativas que transformam o jambu em inovação e renda*

“O jambu é um tempero gostoso que tempera o Pará. Onde tem tucupi, o jambu vai temperar. E o jambú treme, treme, treme, treme…”, diz o trecho da música Jamburana, da cantora paraense Dona Onete. É que a planta é conhecida pela sensação de formigamento na boca, o famoso tremor. O jambu é uma hortaliça típica da culinária amazônica, presente em pratos tradicionais como o tacacá e o pato no tucupi. No Pará, além de ser um símbolo da identidade gastronômica e cultural, ele vem ganhando espaço em outros setores, como o de bebidas, biocosméticos e produtos com propriedades afrodisíacas.
Nativo da região amazônica, o jambu, cujo nome científico é Acmella oleracea, é um dos símbolos da culinária paraense. A planta herbácea de caule fino e macio é cultivada especialmente no Pará e pode atingir até 40 centímetros de altura. Suas folhas verdes e flores amarelas, também chamadas de botões de jambu, provocam uma leve sensação de formigamento na boca, causada pelo espilantol, composto natural liberado durante a mastigação.
O consumo do jambu pode trazer diversos benefícios à saúde, devido à presença de compostos bioativos, vitaminas e antioxidantes. Esses elementos têm ação anti-inflamatória, ajudam a combater o envelhecimento celular, fortalecem o sistema imunológico e melhoram a circulação sanguínea. Além disso, a planta é conhecida por seu potencial afrodisíaco, capaz de estimular os sentidos e aumentar o prazer e a libido.
Há poucos dados consolidados sobre o impacto econômico do jambu, mas sua importância na região é histórica, vem desde os saberes ancestrais dos povos indígenas, que já utilizavam o jambu para aliviar dores de dente, inflamações na boca e tratar problemas de garganta. A planta se espalhou pelas feiras e mercados da Amazônia durante o período colonial, tornando-se popular na alimentação dos paraenses. Atualmente, é uma importante fonte de renda para pequenos agricultores e comunidades ribeirinhas, que cultivam o jambu em pequenas áreas para abastecer a cidade de Belém e outras regiões.
Na região Norte, a produção da hortaliça sofre flutuações, com aumento da demanda em períodos de datas comemorativas, como o Círio de Nazaré, pois o jambu está presente em um dos pratos principais do almoço do Círio, o pato no tucupi. Nos últimos anos, o interesse pelo cultivo tem aumentado, impulsionado tanto pelo uso tradicional na culinária amazônica, quanto pela crescente presença do jambu em alimentos, bebidas e biocosméticos.
Hortaliça inspira mercado de bebidas premium
O jambu é um dos principais ingredientes dos produtos da AMZ Tropical, empresa que desenvolveu um gin feito com jambu. O empreendimento surgiu a partir de um planejamento familiar que previa a instalação de uma destilaria de cachaça na fazenda Santa Bárbara, no Pará. Alterações no cenário econômico levaram o publicitário e empresário paraense Leandro Daher, fundador e CEO da AMZ Tropical, a redirecionar o projeto e investir em uma proposta mais alinhada aos ingredientes da região. E assim ele criou a AMZ Tropical Gin de Jambu e a AMZ Tropical Jambu Tônica.
O uso da planta proporciona às bebidas a sensação anestésica característica, frescor e identidade amazônica, com um diferencial sensorial reconhecido. Leandro Daher explica que o jambu utilizado pela AMZ Tropical vem exclusivamente de agricultores familiares de regiões próximas à Grande Belém e do nordeste paraense, onde há tradição e excelência no cultivo da planta. “Nós compramos diretamente de quem produz, que são duas famílias de agricultura familiar de Castanhal. Comprando direto na fonte, incentivando a produção deles, a gente consegue pagar um valor melhor e, com isso, beneficia diretamente aquela comunidade. É possível gerar impacto econômico positivo e, ao mesmo tempo, preservar a essência da Amazônia em cada produto”, completou.
Todos os produtos unem sabor, inovação e práticas sustentáveis, com o uso de fornecedores familiares, embalagens recicláveis e estímulo à agricultura local, além de fortalecerem a bioeconomia da região. De acordo com o CEO, a rastreabilidade também é uma preocupação. “Fazemos inspeção criteriosa de cada lote recebido, avaliando frescor, higienização, coloração, textura e condições de transporte. Esse processo assegura que apenas jambu dentro do padrão de qualidade definido pela empresa seja utilizado na produção.”
A estrutura empresarial foi oficializada em outubro de 2021, e o primeiro lote chegou ao mercado no mês seguinte, marcando a entrada da marca no segmento de bebidas premium. Ao longo do tempo, a AMZ aperfeiçoou a fórmula à organização da cadeia produtiva e aos trâmites de formalização. Segundo Leandro, a cadeia produtiva incentiva práticas socioambientais sustentáveis. “Nosso modelo estimula que as famílias cuidem e preservem suas áreas de cultivo, mantendo o solo produtivo e saudável. Também garantimos preço justo, valorizando o trabalho local. Em muitos casos, antecipamos pagamentos para apoiar o ciclo produtivo, além de mantermos fornecedores recorrentes, proporcionando estabilidade de renda”, conta.
De acordo com Leandro, a empresa nasceu com a missão de transformar ingredientes amazônicos em bebidas premium, unindo autenticidade, criatividade e impacto positivo. “A AMZ Tropical acredita que é possível gerar impacto econômico positivo e, ao mesmo tempo, preservar a essência da Amazônia dentro de cada produto”. Além da priorização de insumos amazônicos e de fornecedores da agricultura familiar, os produtos também usam embalagens mais responsáveis, como latas, refil e garrafas de alumínio. “São materiais amplamente recicláveis”, conclui o CEO.
Jambu também virou recheio de chocolate

O reforço à agricultura familiar na cadeia produtiva do jambu também está presente no trabalho da Barcalat, fábrica de chocolate em Barcarena, a cerca de 40 km de Belém, que também tem o jambu entre seus ingredientes. Em parceria com pequenos agricultores de cacau, a empresa cria produtos com bioativos amazônicos oferecendo experiências sensoriais únicas, ao mesmo tempo em que promove impacto social e conservação ambiental.
Entre os produtos mais conhecidos estão as barras de chocolate da linha Rainforest, a Barra de Chocolate Jambu e a Barra de Chocolate Jambu com Priprioca, que têm o jambu como ingrediente principal, conferindo uma sensação única na boca e proporcionando uma experiência sensorial diferenciada. As formulações são resultado de pesquisa sobre as propriedades bioativas de cada insumo, conduzidas com base em processos biotecnológicos próprios da empresa, em um processo inovador.
A engenheira bioquímica e cofundadora da marca, Yasmin Cantuária, conta que a Barcalat surgiu em meio a uma realidade preocupante para os pequenos produtores locais, que estavam perdendo parte da produção de cacau por falta de compradores. "A Barcalat nasceu justamente como uma forma de criar valor local, transformando o cacau em chocolates de origem e garantindo a renda dessas pessoas, para que pudessem permanecer na floresta", afirmou Yasmin.

A trajetória da empresa combina pesquisa científica, inovação e respeito ao meio ambiente, com o desenvolvimento de produtos que unem ingredientes nativos e pesquisa aplicada, sempre focando na sustentabilidade e no fortalecimento das comunidades locais. O jambu utilizado pela Barcalat vem de pequenos produtores de Barcarena e Abaetetuba e é cultivado em sistemas agroecológicos que não utilizam agrotóxicos. “Esses produtores respeitam os ciclos naturais das plantas, sem forçar com nutrientes ou venenos desnecessários. Eles fazem parte de uma rede que estamos ajudando a estruturar, envolvendo rastreabilidade, capacitação e valorização do preço de origem. Isso garante que o jambu seja fruto de um processo justo, mantendo a renda das famílias e reforçando sua autonomia”, explica.
A preocupação ambiental também é central. “Trabalhamos exclusivamente com jambu cultivado, sem impacto sobre os ecossistemas. Cada colheita é planejada e replantada, com orientação técnica para aproveitamento integral da planta, redução de desperdício e aumento do valor comercial. Estimulamos práticas regenerativas, como compostagem natural e sombreamento agroflorestal, que protege o solo, conserva a água e a biodiversidade local”, destaca Yasmin.
Para ela, inovação e conservação precisam caminhar juntas, transformando o conhecimento científico em soluções reais que valorizam pessoas e territórios. "Queremos que o consumidor sinta a floresta em cada pedaço de chocolate, mantendo um modelo de negócio que gere renda para a comunidade e conserve a floresta", conclui.
Cosmetologia já utiliza a hortaliça em seus produtos
Para além do paladar, o jambu também tem se destacado no mercado de cosméticos, ampliando seu alcance e valorizando seu potencial como ativo amazônico funcional. No Pará, a empresa de cosméticos regenerativos Tekohá já incorporou a hortaliça em seus produtos, utilizando-o em itens como o Sérum Regenerador Triplo A com Jambu, enriquecido com extrato de jambu, o Balm Multifuncional “Chega-te a mim”, além do primer glow “Brilho da Mata”.

Em um mercado de cosméticos cada vez mais exigente e consciente, a Tekohá surgiu com a proposta de unir a força da biodiversidade amazônica à ciência e ao empreendedorismo. Criada em 2023 pela engenheira de alimentos Danielle Amaral, a empresa transforma bioativos amazônicos em cosméticos veganos e regenerativos de qualidade. A sustentabilidade vai além da escolha dos ingredientes, também está presente no design das embalagens, feitas com materiais recicláveis e biodegradáveis. "Minha motivação sempre foi mostrar que é possível criar cosméticos de alta performance sem agredir o meio ambiente, ao mesmo tempo em que fortalecemos as comunidades que vivem da floresta", explica Danielle.
O jambu utilizado nos produtos é cultivado em Santo Antônio do Tauá, no Baixo Tocantins, a 90 km de Belém, com práticas sustentáveis que respeitam os ciclos naturais da floresta. “Ele vem de uma região rica em biodiversidade e saberes ancestrais sobre o cultivo dessa planta. As comunidades locais preservam técnicas tradicionais, respeitando o equilíbrio ecológico”, conta Danielle.
A empresa se dedica a trabalhar em colaboração com comunidades extrativistas e cooperativas locais, promovendo um modelo de negócios que contribui tanto para a preservação ambiental quanto para o desenvolvimento econômico sustentável da região. A rastreabilidade do jambu, um dos principais insumos da marca, é uma das suas prioridades. “Acompanhamos cada etapa, desde o cultivo até a chegada do insumo à nossa fábrica, garantindo que todo o processo seja transparente, ético e sustentável. Nosso objetivo é que o valor gerado pelos produtos da Tekohá também retorne às comunidades que cuidam da floresta”, explica a fundadora.
*A série “Bio Valor” é uma iniciativa da Jornada COP+, liderada pela FIEPA, que traz reportagens mensais sobre histórias e informações dos principais produtos da sociobioeconomia da Amazônia Brasileira. A iniciativa também está alinhada ao Programa de Sociobioeconomia da Jornada, que está criando uma plataforma digital para medir o valor desta economia no Pará. A plataforma servirá como um mapa das cadeias de produtores, associações, cooperativas e indústrias que compõem esse ecossistema no estado. As iniciativas apresentadas nesta matéria fazem parte da Vitrine de Cases da Indústria Sustentável.
Por Jessie Peixoto e Mayra Leal









